Afinal, qual é a necessidade de falar a verdade?

pedrojansen
Enviamos a alguns blogueiros uma camiseta com os dizeres “É verdade. Todo mundo mente todo dia”. Mais que um brinde, foi um convite à reflexão sobre o tema.

Publicamos agora o primeiro fruto deste exercício de pensar sobre a mentira, escrito por Pedro Jansen, do blog A funky experience.

Qual é, no fim das contas, a necessidade de falar a verdade? Ou de mentir? Imagino que nunca iremos conhecer uma resposta que satisfaça estas questões da mesma maneira para mim, para você, leitor, e para todas as pessoas que nos rodeiam.

Pois a questão não é dormir tranquilamente à noite, ou escapar de uma situação complicada. A questão é que o ser humano, falho como é, tem na verdade ou na mentira uma questão de escolha, muitas vezes, involuntária.

Ou você, surpreendido por uma pergunta inesperada, não se surpreendeu novamente respondendo involuntariamente algo que não era verdade ou que era verdade demais?

Pois é.

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“Mentir é fácil. Difícil é sustentar a mentira”

Barão de Münchhausen

Entrevistamos o Dr. Breno Montanari, psiquiatra forense com mais de 30 anos de experiência, para entender um pouco mais sobre a mentira.

1)      Quando a mentira deixa de ser um recurso natural e passa a ser patológica?

Existem mentiras que são consideradas inocentes, como aquelas que servem para driblar uma saia justa, e até necessárias, como quando o médico esconde do paciente terminal seu real estado de saúde.

Há também os mentirosos profissionais, que mentem para obter ganhos. É o caso do político desonesto e do estelionatário. Eles mentem com freqüência e são bons nisso; dificilmente são pegos.

Mas nenhum dos casos acima é considerado patológico.

A mentira é parte de uma doença quando não é voluntária. É aí que está a diferença.

O mentiroso compulsivo não consegue controlar a vontade de mentir. Ele mente sobre praticamente tudo, inclusive coisas pequenas. Não há ganho na sua mentira – ela é simplesmente irresistível. Muitas vezes, ele nem se preocupa em “esconder” as provas que depõem contra ele.

2) É verdade que poucas pessoas têm estrutura emocional para mentir e sustentar a mentira? Que a maioria não suporta o tranco e se convence de que a mentira que está contando é verdade?

Para a primeira parte da pergunta, a resposta é sim, pouca gente tem estrutura emocional para mentir. É justamente por isso que, enquanto mentem, sua linguagem corporal os denuncia.

A mentira em si é algo pontual, rápido e relativamente fácil de contar. O que é difícil é sustentar a mentira, porque isso envolve dissimulação. A pessoa tem de inventar uma história, decorá-la, criar álibis. Isso gera nervosismo e é esse o tranco que você menciona.

Mas a resposta para a segunda parte da pergunta é não, as pessoas não se convencem de suas mentiras. O que acontece é que os mentirosos profissionais sabem agüentar o tranco, estão preparados para isso. Não porque acreditem que o que dizem é verdade, mas porque têm um objetivo claro com a mentira e se esforçam para que os outros acreditem.

3) É verdade que quando uma criança descobre a mentira ela experimenta uma grande sensação de liberdade, ao perceber que nem tudo o que fala precisa ter acontecido ou acontecer?

Mentir é natural, ou seja, a gente aprende desde cedo, sem que ninguém ensine. Os estudiosos acreditam que, até os 7 anos de idade, a criança não é capaz de diferenciar verdade e mentira. É por isso que, mesmo que seja testemunha ocular de um crime, seu depoimento não é aceito como prova em um julgamento.

O que acontece é que a criança mente para fugir da responsabilidade, do castigo. Ela não vê a questão moral. Os pais, então, ensinam que mentir é errado e associam a mentira à punição e, a verdade, à recompensa e, só depois disso, começamos a mentir com “maldade”.

4) Qual é o maior mentiroso da literatura mundial?

O Barão de Münchhausen, dos contos de Rudolph Erich Raspe (que ilustra o post, em retrato de G. Bruckner).

5) E do cinema?

Fletcher Reede, o personagem de Jim Carrey em O Mentiroso.

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