Escrevo, logo, minto

louback

Aqui vai o post que o Gabriel Louback, do blog Crônico, escreveu para nós.

Gosto de dizer que não minto. E fique tranquilo, não o faço mesmo. Quer dizer, não o faço quando esperam isso de mim. Já tive diversas oportunidades para mentir para diferentes chefes, por exemplo. Porém, sempre assumi a bronca em admitir o erro ao invés de mentir para ficar bem na fita. Isso eu garanto. Dizem que sou um dos poucos da raça.

Acontece que o que mais gosto de fazer é criar. Inventar. Não sou cientista, muito menos artista. Só escrevo. O que vejo, o que ouço e o que penso. E, ironicamente, o texto fica sempre um pouco mais legal se acrescento algo que não estava ali. Crônicas e contos são prisioneiros da ‘mentirinha’. As crônicas mais ainda, por terem como base um acontecimento verdadeiro e real [o conto já é, inteiro, uma história inventada]. Mas o texto é cheio de elementos que não estavam ali. É como fazer um filme em Nova York ou Rio de Janeiro. A cidade é bonita sim, real, está lá pra quem quiser ver. Mas os efeitos de lente, de luz e trilha podem transformar um ambiente, sem nenhum efeito especial super tecnológico. O John Cusack não frequenta examente os lugares do filme, ou perambula daquele jeito.

Assim, minto constantemente. Não por escolha, mas por ser inevitável. Olho as pessoas na rua e sempre acrescento um elemento que não está ali. Mas poderia. Nisso, tento justificar a mentira, como uma parábola: ela não existe, mas é plausível de acontecer. É um mundo lúdico e utópico, mas é assim que o vejo. E escrevo.

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